quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

O imperador de anil analisado nas duas faces da lâmina d’água.

      O IMPÉRIO:
Há algum tempo, grande parte do cerrado do centro-oeste brasileiro se transformou em um mar de águas azuis com a construção do maior lago artificial das Américas, ocorrendo uma drástica alteração do seu cenário e de seus habitantes. O manto verde que cobria os vales, após ser inundado, serviu de matéria orgânica para compor a base de uma nova cadeia alimentar que se formava.

         Locais onde, outrora, eram habitados por répteis e mamíferos terrestres se transformaram em território de caça para tucunarés, bicudas e bagrídeos, além de servirem de morada para uma infinidade de outros seres aquáticos.
Logo após a formação do lago da Serra da Mesa muitos assistiram a uma explosão de vida aquática. Pacus, matrinxâs, piabanhas e piaus se esbaldavam com tanta fartura de alimento. Logo, os tucunarés nativos se reproduziram em grande escala, disseminaram e exigiram o seu território. Eram cardumes e mais cardumes de sumir de vista.
Com a deterioração e consumo da vegetação alagada, o combustível alimentar foi se esgotando, causando um emagrecimento da pirâmide alimentar dos peixes. Além disso, a enorme pressão de pesca também contribuiu para a redução acelerada dos estoques pesqueiros.
Há alguns anos, o lago vinha sofrendo uma queda importante do seu nível de água, distanciando a mata ciliar de sua margem, alcançando até trinta metros de distância de solo descoberto, expondo animais terrestres a caçadores ilegais quando estes iam beber água.
No último ano, por exigências políticas, o lago voltou a subir e já toca sua mata ciliar, fornecendo sombra e alimento para os peixes, com previsão, para os próximos anos, de restauração de sua fauna aquática e terrestre.
Assim, se os pescadores praticarem a pesca responsável, poderão vivenciar novamente tempos de glória. A população consciente e os guias capacitados pelo Programa Nacional de Desenvolvimento da Pesca Amadora (PNDPA) pedem colaboração a todos que visitarem o lago nessa nova fase de esperança.
As incríveis ações do seu imperador:
Nossa expedição ao lago foi feita no mês de novembro e, para escapar um pouco das chuvas e ventos, realizamos nossa pescaria em locais mais abrigados. Exploramos várias grotas, pontas e ilhas protegidas por altas colinas que as circundavam.
No início da manhã e no final da tarde tivemos ações por todos os lados e profundidades, mas quando o sol estava alto os tucunarés partiam para o fundo ou se abrigavam nas sombras das sambaíbas (principal árvore que compunha as margens). Para isso, nossa tralha foi composta de iscas artificiais que trabalhavam em profundidades diferentes.















 Pesquei na maior parte do tempo com fly, utilizando equipamentos #5, #7 e #9, com linhas WF-F e, como iscas, poppers, divers, deceivers e clouser minnow, entre outras. A transparência da água era tanta que mesmo em drop-offs abaixo dos cinco metros era possível ver a subida dos grandes azuis ao ataque das iscas na superfície.
Ao mesmo tempo em que a transparência da água favorecia a visualização da mosca pelos peixes que estavam mais ao fundo, também exigia arremessos mais longos (acima dos vinte metros), pois evitava que os peixes nos vissem durante a subida à superfície.
Encontramos alguns cardumes de bons tucunarés alvoroçados. Acreditem se quiser: alguns “tucunas” chegaram a acompanhar a movimentação da mosca no ar, nadando pra lá e pra cá e, quando a mosca tocava na água, era rapidamente atacada. A captura de um azul de aproximadamente 3 quilos no meu equipamento #5 me deixou meio apreensivo, mas a ausência de estruturas submersas, naquele local, me ajudou a trabalhar bem o peixe.
Alguns grotões eram literalmente dominados por um único casal de tucunarés azuis, apenas mais alguns tricks se escondiam na vegetação das margens.
Uma cena que deixou todos da embarcação boquiabertos foi ver, ao lado do barco, um pequeno tucunaré que brigava na isca do meu companheiro, Saymon Catoira, ser arrancado dos anzóis por um enorme azulão. Isso me deixou ainda mais a vontade para substituir meus deceivers por poppers e poder sentir as explosões na superfície. Tucunarés com até cinco quilos atacaram com astúcia as moscas trabalhadas com uma maior velocidade.
O Popper era apresentado nas sombras das sambaíbas semi-submersas; quando não era atacado logo nos primeiros toques, ainda na sombra, um risco azul de anil rasgava a água enfurecido e, na maioria das vezes, encharutava o pequeno Popper. O grande azul interrompia o “ploc” rítmico da isca com uma bocada certeira, levantando água para todos os lados, firmando assim, o seu imperialismo sobre a grota. Poppers completamente destruídos e com anzóis abertos foram o que restou das batalhas com os fortes tucunarés que provaram seu sabor. São essas e outras qualidades que fazem do tucunaré o ciclídeo de maior importância na pesca esportiva mundial.
Visitamos alguns braços do lago nos quais desaguavam lindas cachoeiras, locais que ofereciam uma maior oxigenação e eram infestados por lambaris. Apesar de esses locais possuírem uma água mais fria, o que não costuma agradar muito os tucunarés, alguns cardumes acabavam invadindo esses recantos fartos de presas “fáceis”. Soubemos aproveitar muito bem a visitação dos azuis a esse banquete, capturando alguns belos tucunarés.
Traíras, bicudas e até o exótico jacundá-açú rechearam ainda mais nossa aventura. Vários dublês foram embarcados. Quando os tucunarés enroscavam nas estruturas submersas, mergulhava para desprendê-los e era uma boa oportunidade de dar uma espiada no cardume.
Num final de tarde, um imenso cardume de tucunarés fez pulsar o restinho de adrenalina que ainda restava em nossas veias. Eu e meu amigo tínhamos nada menos que cinco bons tucunarés engatados ao mesmo tempo na ponta de nossas linhas.
Nos últimos minutos da luz do dia, Saymon brigou com um enorme peixe que atacou sua Birutinha J, verde limão. Era mais de cinco quilos de tucunaré azul levando muita linha para o fundo da grota. Em alguns minutos o grande imperador de anil foi dominado e encheu os olhos do amigo de tanta satisfação. Com todo o seu merecido respeito, o grande azul retornou ao seu império. Fiquei tão encantado com o peixe que ainda fiz um mergulho para apreciá-lo embaixo d’água, e lá estava ele, descansando ao lado de uma pedra, se recuperando da batalha. Realmente, o tamanho da sua silhueta fazia qualquer outro tucunaré respeitar o dono daquela grota quando a visitasse.
O mergulho no Império de anil:
A Serra da Mesa está situada na região centro-oeste do Brasil, apresentando uma temperatura mais alta do que o sudeste, permitindo que os tucunarés se reproduzam praticamente o ano inteiro, com uma maior intensidade durante a primavera, entre os meses de setembro a novembro. A alta temperatura de suas águas mantém o metabolismo do peixe mais acelerado, um dos motivos que fazem os tucunarés da região caçar mais intensamente e ter um desenvolvimento mais rápido, sendo possível observar tucunarés azuis de até dois quilos com sinais de imaturidade sexual, como as pintas brancas pelo corpo, face e nadadeira dorsal e caudal, erroneamente chamado de tucunaré paca. O territorialismo dos tucunarés é tão grande que presenciei um casal de grandes azuis defendendo um tronco que ainda nem sequer haviam postado seus ovos.
Cardumes imensos encostavam-se às ilhas no fim de tarde para fazer sua última caçada do dia; ficavam tão distraídos com a caça que chegavam a quase tocar a lente da minha câmera de mergulho, sem importarem com minha presença.
O “vôo” rasante das arraias-fogo engrandece ainda mais aquele paraíso. São poucos segundos em que toda a beleza do mundo parece estar concentrada em um só ponto da Terra.
Dicas técnicas:
Os tucunarés nativos da região da Serra da Mesa preservam uma agressividade impressionante, possuindo uma menor seletividade as iscas, quando comparado com os tucunarés do sudeste brasileiro, mas ficam ariscos quando enxergam a embarcação.
Para melhorar o casting e conseguir arremessos mais longos das moscas que apresentam uma maior resistência no ar, como poppers e streamers mais volumosos, é recomendável utilizar um leader mais curto.
Atei a seguinte montagem do leader cônico: 80 cm de nylon 0,60 mm, 50 cm de nylon 0,50 mm e tippet de 40 cm de fluorcarbono 0,40 mm, formando assim, um leader de 1,7 metros de comprimento.
É imprescindível que o mosqueiro domine o movimento de double roll ou puxada dupla, pois esse é um movimento que permite o pescador realizar lançamentos mais longos. A vara em posição mais lateralizada também facilita o back cast quando temos o vento nas costas.
Outras dicas:
O município de Niquelândia é o maior do estado de Goiás e cerca boa parte do lago; ao lado, temos o município de Colinas do Sul, que possui bons pontos. A Serra Negra também é uma ótima opção do lago. Existem várias pousadas na região, podendo ser pesquisadas pela internet, mas, por opção própria, levamos a nossa embarcação e acampamos em Colinas do Sul. Fomos conduzidos por um bom guia local, que conhece muito bem a região e foi fundamental para o sucesso da pescaria. Seu nome é Edemilson, mais conhecido como “Pé na cova” (62-96574552), treinado pelo PNDPA e que merece o reconhecimento pela sua companhia agradável e pelo comportamento respeitoso com a natureza.
Fotos: Saymon Catoira


Obrigado pela visita!
Equipe Gofly 

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Como comprar a primeira vara de fly?


Um tópico que gera dúvidas na maioria dos iniciantes é a compra da sua primeira vara de fly. O primeiro ponto a se definir para a aquisição de tal equipamento é: “quais os peixes irei pescar?” e "que moscas irei usar?", esses dois parâmetros são os mais importantes a serem considerados na escolha do equipamento. Muitos sabem que para o mesmo peixe pode-se usar moscas de peso e volume diferentes, e que quanto mais pesada ou volumosa forem essas moscas mais forte também deverá ser o equipamento. Mesmo que essas duas variáveis (peixe/mosca) gerem infinitas opiniões, nos arriscaremos em dar nossas considerações na escolha do equipamento, levando mais em conta o parâmetro "peixe", segue aí nossas recomendações para termos um bom equilibrio entre peixe/ mosca/equipamento:  
  1. Equipamento #0, #1 e #2: para piabas, lambaris e acarás;

  2. Equipamento #3 e #4: Pequenos Brycons (Pirapitinga do sul, Voadeira, etc.), Sardinha, branquinha, pacus pequenos, tabaranas, trutas, saicangas, jacundás e tilápias. OBS: se for usar uma vara de carbono de ação moderada, moderada-rápida ou rápida, use equipamento #3, mas se for usar varas de ação lenta (bamboo ou carbono IM6) prefira o equipamento #4. O uso de ninfas muito lastreadas podem exigir equipamentos mais fortes, tais como varas de carbono #4 ou #5.

  3. Equipamento #5 e #6: Tucunarés menores, tabaranas ou até peixes um pouco maiores (ex: matrinchã, pacú, piraputangas, bicudas, etc...) mas quando usarmos moscas pequenas (Ex: EP minow)

  4. Com equipamentos #7 e #8 já é possível capturar grandes tucunarés, dourados, apapás, bicudas, cachoras, lembrando que se usarmos moscas mais pesadas ou volumosas como Andinos/mugler e poppers deem preferência por equipamentos mais fortes (#9 ou #10);

    5.  Equipamentos #10, #11 e #12 são mais indicados para tucunarés amazônicos, dourados grandes (La Zona), Tarpons e Permit, pois além de serem peixes extremamente fortes, algumas vezes podem exigir moscas maiores ou mais pesadas. Em água salgada é muito comum a presença do vento forte, sendo um fator que "pedirá" também um equipamento mais robusto.
  Resumindo:
  • Pequenos Peixes: Equipamento #0 a #3
  • Peixes Médios: Equipamento #4 a #7 
  • Grandes Peixes: Equipamento #8 em diante

PERGUNTAS FREQUENTES:

1) E se eu só tenho condições de possuir um único equipamento?

Caso o pescador utilize o equipamento para pescar mais de um grupo de peixes deverá comprar o equipamento de acordo com o grupo de peixes que mais pesca. Por exemplo: Se irá pescar grandes peixes uma vez ao ano, pescando no restante peixes médios, opte por um #6, nunca se esquecendo que quando for pescar os peixes grandes com ele deve-se usar um tippet (parte mais fina do líder) adequado, para que tenhamos a  proteção do nosso equipamento ("é preferível romper um tippet, perder uma isca ou o peixe do que quebrar a vara"). Por outro lado, se grande parte das pescarias ocorrer com peixes pequenos, mas havendo ainda assim pescaria de peixes médios, opte pelo #4. Essa sugestão só é aplicada caso o iniciante não tenha condições de possuir mais de um equipamento.

2) Qual ação de vara devo comprar?

Uma orientação que sempre faço a quem nos consulta é que as varas de ação muito rápida ou muito lenta (carbono IM6 ou bamboo) não é recomendável para o iniciante. Explicações: Com a vara muito rápida o iniciante poderá não sentir o seu "carregamento" durante os casts, já as varas lentas exigem um domínio técnico maior e devem ser arremessadas com um ritmo mais pausado e menos brutalidade, deixando a vara se encarregar do carregamento da linha. Uma vara de ação moderada seria o ideal para o iniciante começar seu treinamento, pegar o tempo da vara/linha, etc.

3) Onde comprar?

Com a numeração do equipamento em mãos é hora de ir para a rua ou computador para comprar a vara. É interessante esclarecer que hoje existem várias marcas de equipamentos de fly, com os mais variados preços e qualidade. Compre a melhor vara que seu dinheiro puder comprar! A regra é que preço e qualidade geralmente caminham juntos, mas toda regra tem sua exceção ! Classificando as varas em 4 grupos de preço, os pescadores de Goiás poderão encontrar: (Clique na figura para ampliar)



OBS: Essa tabela foi editada em 2009, novas lojas (fly shops) podem ter surgido até a data de hoje, procure se atualizar!

Na barra lateral direita do nosso blog, em "Sites Bacanas", possui uma atualização dos sites que vendem equipamentos e moscas no Brasil. Antes de comprar sempre consulte o vendedor ou peça orientação a quem já tem aquele equipamento ou experiência com ele (fóruns de pesca com mosca são ideais para tirar essa dúvida).

De posse dessas informações, veja qual a vara que mais adequada ao seu bolso. Para pescar com fly você não precisa necessariamente de uma vara cara. Não se deve esquecer também o mais importante: Mais importante do que ter um bom equipamento é saber utiliza-lo corretamente.

       Obs: Existem inúmeras variáveis que influenciam na escolha de uma vara, como peso das moscas, incidência de vento, presença de obstáculos, pescaria embarcada, pescaria desembarcada (vadeio) com mata ciliar fechada, arremessos embaixo de copas de árvore. Porém, pensando em iniciantes, simplificamos a escolha por se tratar de um primeiro contato com a modalidade.
Rafael Pacheco e Leandro Vitorino
GoFly

domingo, 17 de janeiro de 2010

Cerrado: Território do vadeio brasileiro. (Parte III)

-->Por: Leandro Vitorino

...Continuação

A avaliação do comportamento das pirapitingas em relação à pesca com mosca:

Cardume de Pirapitingas-do-sul (Brycon nattereri), Bacia do Tocantins.   
Foto: Leandro Vitorino
A pirapitinga é considerada, por muitos pescadores que já a pescaram, o peixe mais arisco de água doce do Brasil. Encontrar ambientes preservados que são povoados pela pirapitinga já é um desafio nos dias de hoje, pescá-la, então, torna-se ainda mais difícil.  
Devemos evitar vestimentas claras, o que afugentam as pirapitingas em águas límpidas, pois em muitos lugares, o peixe já associou a figura humana como uma ameaça. É imprescindível uma aproximação silenciosa dos locais promissores e ainda, o mais importante: não perder a fisgada e nem o peixe durante o trabalho! Por quê?
Quando um peixe está com a mosca na boca, o seu exercício de mastigação dispara instantaneamente um frenesi alimentar no cardume e com um bom entrosamento com o seu parceiro de pesca, pode acontecer dubles. Mas quando há a perda do peixe, os demais indivíduos do cardume vão inspecionar o exemplar que foi perdido, percebendo nele sua agonia, stress (dada pelo excesso de mucosidade que também libera um odor característico) e cansaço, haverá um bloqueio repentino dos ataques pelo restante do grupo. Além disso a fuga do peixe acaba arrastando outros indivíduos do cardume. Quanto menor for o cardume mais esse comportamento é intenso. Quando o cardume é muito grande  essa dispersão em fuga é mais amena. Esse é um comportamento instintivo existente em todos os peixes que se agrupam em cardumes, mas na pirapitinga ele parece estar potencializado.

Pirapitinga capturada por Rafael Pacheco com Black Nymph (anzol#12, 2XL); tippet 0,14 mm.          
Foto: Leandro Vitorino
Outra dica importante ao mosqueiro é fazer a soltura do peixe num local mais abaixo de onde ele foi capturado, para que ele não se agrupe rapidamente ao cardume, o que, conseqüentemente, também bloqueará as ações do cardume. Mas lembre-se de fazê-lo rapidamente, pois a pirapitinga é um peixe muito sensível à falta de oxigenação.
Caso passe muito tempo sem haver ataques num local promissor, onde você consegue até mesmo visualizar o cardume, é hora de repousar o local. Contente-se em mudar de ponto, pois levará algum tempo até que as pirapitingas se recuperem do stress e fiquem ativas de novo. A paciência é uma virtude que deve sempre acompanhar o mosqueiro.
Qualquer que seja a dúvida em relação ao comportamento do peixe procure a resposta nas demonstrações simples da natureza, certamente você irá encontrá-la. Isso vale para qualquer peixe e em qualquer ambiente que você esteja pescando.
Pescar subindo ou descendo o rio?
           Essa resposta pode depender de algumas variáveis, como por exemplo: transparência da água, profundidade do trecho que se irá pescar, preferência pessoal do pescador por moscas secas ou lastreadas e o comportamento da espécie em atacar ou não as moscas secas.
Ao contrário do que muitos imaginam, a maioria das grandes pirapitingas preferem as corredeiras rasas, desde que estejam próximos de um local aonde possam se refugiar. Mas bons cardumes, principalmente de machos,  ficam presos em poços de cachoeiras durante a seca.
Foto: Rafael Pacheco                    
Explicando melhor:
Quando subir o rio?
     Se a água estiver clara e o trecho em que o pescador irá vadear for raso, o mosqueiro que aprecia um belo ataque a uma mosca seca deverá dar preferência em subir o rio. Também é possível pescar com ninfas subindo o rio, utilizando técnicas como o Nymphing, mas está técnica não será explicada nesse momento.
     Quando estamos subindo o rio, a mosca seca é apresentada rio acima e à medida que a mosca desce ao sabor da correnteza, simulando um inseto que caiu na água, vindo ao encontro do pescador, basta com que ele vá recolhendo sua linha, para mantê-la esticada e preparada para o momento da fisgada. Já, quando estamos descendo o rio, dificilmente conseguiremos fazer com que a mosca seca desça na velocidade que desejamos, pois neste caso, teremos que descarregar a linha na velocidade exata da correnteza. Além disso, quando optamos por descer o rio, os passos do mosqueiro na água poderão deixá-la mais turva, prejudicando a visualização da mosca pelo peixe, mas isso pouco acontece quando estamos vadeando em rios de pedra e com poucos sedimentos. Outro fator negativo para descer o rio é que o peixe poderá sentir seu cheiro, podendo afugentá-lo.
     Outro argumento muito utilizado e coerente é que a peixe posiciona-se com a cabeça para cima (contra a corrente), o que facilita sua respiração e é de lá que ele espera que venha o alimento, portanto quando subimos chegamos por trás do peixe, em seu ponto cego de visão, o que certamente tornará menos perceptível a nossa aproximação. 

Casting rio acima. Foto: Leandro Vitorino
     
     Quando descer o rio?
     Caso a água não esteja muito clara, o que faz com que caia a produtividade das moscas secas, o mosqueiro deve dar preferência às moscas molhadas ou lastreadas, mesmo em águas rasas. Mas essa não é uma verdade absoluta, pois quando ocorre uma chuva seguida de uma revoada de içás, mesmo que a água escureça, os peixes atacarão na superfície. Portanto, a observação e a boa interpretação da natureza são de grande valia ao mosqueiro. 
      Quando os locais são mais fundos e os peixes estão mais ativos em maiores profundidades, o uso de mosca lastreada também é preferível.
   Daremos preferência em fazer o vadeio rio abaixo quando utilizarmos moscas lastreadas ou molhadas, pois, como muitas dessas moscas imitam criaturas aquáticas, o seu trabalho mais comum é dar pequenos toques de recolhimento, simulando uma criatura viva se locomovendo, essa técnica é chamada de Swinging. Outra grande vantagem dessa técnica é que a linha se mantem permanentemente esticada, pronta para fazer a fisgada.
   Quando estamos pescando em correntezas rápidas e com mata ciliar fechada, um dos arremessos mais úteis é o roll cast, que é mais facilmente realizado durante a descida do rio. A correnteza mantém a linha esticada, o que é necessário para iniciar a sequência de movimentos do roll cast. Esse movimento básico será explicado em outra ocasião.

Roll cast na descida do rio. Foto: Leandro Vitorino

Outras espécies:

     Aqui habita também o maior lambari do mundo, entre as mais de 300 espécies de lambaris já catalogadas, ele é o lambari largo (Astyanax elachyleps). É um “lambarizão” grande mesmo! Talvez o maior dos lambaris (há outra espécie próxima, no Peru, Bolívia e no Acre, o Astyanax maximus, que o rivaliza em tamanho). É típico da Bacia do Tocantins, conforme afirma o biólogo Flávio Lima (mestre e doutor do museu de zoologia da USP, especialista em Brycon). Também lembra o tambiú (lambari-de-rabo-amarelo, Astyanax bimaculatus).
     O lambari-largo é facilmente confundido com uma pequena matrinxã ou uma pirapitinga, mesmo pelos pescadores mais experientes. Facilmente capturamos exemplares acima de 100 gramas, sendo pescados até com anzóis #10, mas o ideal são anzóis #12 ao #16. Eles preferem correntezas um pouco mais lentas. Não é uma espécie saltadora, mas ataca muito bem as moscas secas e proporciona uma boa briga com equipamentos de #0 a #2.

Lambari-largo. Foto: Leandro Vitorino

O “largo” pode ficar ainda bem maior do que esse da foto. 
Foto: Rafael Pacheco

O lambari-de-ferrão é outro exótico peixe das águas de Piri:

Lambari-de ferrão (Jupiaba apenima). Foto: Leandro Vitorino

     O lambari-saltador é sem dúvida o mais sensacional de todos os lambaris na visão do mosqueiro. É um caçador de superfície, chegando a saltar fora d’água para capturar insetos, sendo que seu cardume é facilmente localizado por seus saltos em baixo de copas de árvores. Possui boca grande e olhos bem proeminentes. Os índios da Amazônia pescam esse lambari numa modalidade de fly primitivo; eles atiram a linha rapidamente na água, deixam a isca afundar por, no máximo, 4 a 5 segundos, porque eles atacam a isca imediatamente quando ela cai na água, mas não a acompanham se ela afundar. Ele ataca quase que exclusivamente só as moscas secas, não é mesmo incrível?

Lambari-saltador (Bryconops caudomaculatus). Foto: Leandro Vitorino

Esse é o místico mundo encantado dos rios do cerrado brasileiro!

                                                                                                                    Foto: Leandro Vitorino

OBS: somos uma equipe formada, por pescadores em permanente fase de amadurecimento técnico. Além disso, pouco ainda se conhece sobre a pesca de pirapitingas com mosca, mas esperamos dar nossa contribuição no seu desenvolvimento. Quaisquer dúvidas, sugestões, ensinamentos ou críticas construtivas serão muito bem vindas. Basta postá-las abaixo, em “comentários”. Também queremos aprender com vocês!

Obrigado pela visita!
GO FLY