sábado, 5 de maio de 2012

PROJETO PIRAPITINGA (GOIÁS - BRASIL)

Fotos: Arquivo Projeto Pirapitinga


Nosso país é o mais rico em biodiversidade do planeta. Apesar de toda essa diversidade, o Brasil é hoje o segundo país em número de espécies ameaçadas.
Cateto com seu filhote. Foto: Leandro Vitorino
Estudiosos afirmam que várias espécies estão sendo extintas antes mesmo de serem conhecidas e catalogadas, é como se todos esses seres passassem despercebidos pela humanidade, contudo alguns se preocupam mais em descobrir outras formas de vida em outros planetas.
Perereca dormia num galho à beira do rio. Foto: Leandro Vitorino
Escuto dizeres do tipo: “devemos preservar para que nossos netos possam ver esses animais”, ou seja, até nossa idéia de preservação está voltada para agradar o ser humano. Apesar dessa frase ser um ótimo pretexto para orientar nossas crianças quanto à importância da preservação, nossa responsabilidade precisa ir mais além.
Esperança se camufla no musgo das árvores. Foto: Leandro Vitorino
Enquanto muitas pessoas chegam a gastar milhares de dólares numa obra feita pela mão humana, uma beleza infinitamente maior está logo ali, de graça e ao nosso alcance, mas que muitas vezes passa despercebida por muitos olhares.

O raro e ameaçado casal de Pato-mergulhão, dentro das áreas do Projeto Pirapitinga. Foto: Leandro Vitorino
SOBRE O PROJETO
Cardume de Pirapitingas (Brycon nattereri). Foto-sub: Leandro Vitorino
O Projeto Pirapitinga foi idealizado em 2008 por Leandro Vitorino, que logo juntou seus ideais aos de seu primo Oscar Vitorino, mestre em biologia. Desde então, iniciaram um trabalho de pesquisa sobre a espécie. Várias viagens deram início à procura dessa espécie e em inúmeras delas pode-se confirmar sua extinção em alguns pontos onde outrora cardumes nadavam em abundância.
Oscar Vitorino Jr, biólogo pela UNB e mestre, é o diretor do Projeto Pirapitinga 
A Brycon nattereri ocorre em algumas regiões de cerrado das Bacias do Alto Paraná, São Francisco e Alto Tocantins. Mas devido a grande destruição do seu habitat, sua população encontra-se restrita a alguns focos.
Kelven Lopes, um dos fundadores do Projeto.

Renato, integrante do Projeto.
James Blanco também integra o Projeto

Rafael Pacheco, conhece como poucos as pirapitingas.
Conseguimos autorização para pesquisarmos sobre essa espécie e fazermos um trabalho de campo apropriado, porém usávamos metodologias diferentes das tradicionais. A coleta do peixe pela maioria dos trabalhos de campo é feita através de redes de espera e redes de arrasto, mas o projeto pirapitinga conseguiu, de forma menos traumatizante e satisfatória, coletar a pirapitinga e registrar dados ainda pouco descritos.
Maurício Velho, colaborador do projeto.
Ricardo Padovan também é um colaborador no trabalho de campo do projeto.
Utilizávamos de forma eficaz o mergulho em apneia de observação juntamente com recursos fotográficos para contabilizarmos o número de indivíduos e o tamanho deles no cardume. Por meio da pesca com equipamento de pesca com mosca (flyfishing) estudávamos isoladamente alguns indivíduos do cardume. Eram coletados dados como: sexo, comprimento, maturidade sexual e aspecto físico geral, logo após eram devolvidos saudáveis ao seu ambiente. Informações sobre a dieta do peixe eram obtidas através de observações de alguns espécimes colocados em recipientes com água bem oxigenada. Dessa forma, o stress causado por esse acondicionamento levava o peixe a regurgitar todo o alimento contido no estômago em 100% dos casos. Após essa manipulação esses indivíduos eram liberados em seu habitat natural.
Rodamos vários municípios da Serra da Mesa, Serra dos Pireneus, Planalto Central, Serra de Caldas, Chapada dos Veadeiros e Serra da Canastra. O estudo foi feito com mais de quatrocentos peixes pesquisados em todos os meses do ano, em regiões distintas. Alguns gráficos e dados do estudo de campo conseguiram agregar informações importantes ao projeto, permitindo que estratégias pudessem ser desenvolvidas, visando a proteção da espécie.

ENQUANTO A SUSTENTABILIDADE DO PROJETO


Inicialmente, um dos meios de levantamento de verba viria do turismo da pesca esportiva praticada nas áreas do projeto, sobre a supervisão de guias especializados e de outros membros treinados. Porém, durante a implementação dessa ação sustentável tivemos alguns fatos negativos: como moradores locais pescando e matando peixes dentro das áreas cadastradas pelo projeto, lixos deixados pelos mesmos, retirada de placas de conscientização, incêndios provocados, cortes de cercas e invasão das propriedades privadas colaboradoras do projeto. Esses fatos inviabilizaram a instalação da pesca esportiva e turística, o que seria uma das ações de sustentabilidade.
Até o momento, por medida de segurança da espécie, o turismo da pesca na região encontra-se suspenso. Porém a pesca com mosca, realizada por integrantes do projeto e seus colaboradores continua existindo como metodologia de pesquisa no trabalho de campo, para que ocorra um monitoramento das populações já estudadas e para que novas áreas de ocorrência sejam descobertas e incluídas ao projeto.

BIODIVERSIDADE NAS ÁREAS DO PROJETO PIRAPITINGA
O venenoso Sapo-Flexa ocorre no cerrado rupestre. O macho possui cuidado parental e carrega seus girinos nas costas na época da reprodução. Foto: Leandro Vitorino
Ao contrário da maioria dos outros sapos, o Sapo-Flexa possui hábitos diurnos. Foto: Leandro Vitorino
Uma grande variedade de áreas de cerrado da região Centro-Oeste e Sudeste do Brasil já foram estudadas. A pirapitinga é a nossa espécie foco do projeto, entretanto outras espécies de peixes do mesmo habitat também se encontram ameaçadas e passam por sérios riscos de extinção. O Pacú-penacho (Pacú-bandeira), a Tabarana e o Trairão da Bacia do Tocantins são alguns desses exemplos e os principais fatores de ameaça observados são as PCHs, destruição de mata ciliar, poluição e pesca predatória. Esses peixes exigem água limpa, bem oxigenada e uma mata ciliar preservada para que forneça seu alimento, além da não interrupção de sua migração para a desova.

Algumas espécies são extintas antes mesmo de serem catalogadas. Foto: Leandro Vitorino
O estudo da pirapitinga nos levou a conhecer uma gama incrível de mamíferos, aves, répteis, anfíbios, peixes, plantas e insetos.
Coral-falsa no cerrado. Foto: Ricardo Padovan
O Cerrado é rico em espécies endêmicas. Estudar a entomofauna do cerrado é também de suma importância ao projeto, já que a pirapitinga é um peixe onívoro com enorme predileção por insetos.

O maior gafanhoto das Américas: Tucurão. Foto: Leandro Vitorino 
Pesquisar e entender o ciclo de vida das saúvas, moscas da pedra, gafanhotos, formiga-leão entre outras, fez com que o projeto conquistasse um grandioso arquivo fotográfico e cultural da entomofauna do cerrado.

Mané-magro. Foto: Leandro Vitorino
Hellgrammite, larva de Dobsonfly em sua fase aquática. Foto: Leandro Vitorino
Dobsonfly macho em sua fase terrestre (adulta). Foto: Maurício Velho
A Formiga-leão (Piolho-de-urubú) é um inseto terrestre e predador, fazendo suas armadilhas em terrenos arenosos. Foto: Leandro Vitorino
O PROJETO E A PESCA COM MOSCA (FLYFISHING)


A pesca com mosca é útil como metodologia de pesquisa do projeto, por se tratar de um método limpo, eficaz e com boa seletividade, além de provocar mínimos danos ao peixe capturado, quando manipulado por mãos treinadas.
Ao longo de nossa caminhada conquistamos alguns parceiros e colaboradores do projeto que além de focarem na preservação da espécie, também têm se encantado com a beleza do peixe e seu estilo de pesca.
Gafanho que passou a ser mais um passageiro durante trabalho de campo. Foto: Ricardo Padovan

Maurício Velho com uma das pirapitingas capturadas na pesca com mosca. Foto: Rafael Pacheco
Apesar da pirapitinga se alimentar principalmente de ninfas de insetos em fase aquática, não dispensam flores, frutos, sementes, insetos terrestres, pequenos peixes, anfíbios e até roedores. São extremamente oportunistas e vorazes, fazendo com que seus ataques sejam de forma rápida e agressiva às “moscas terrestriais” (iscas artificiais flutuantes que imitam insetos terrestres) apresentadas pelo mosqueiro (pescador) em poços ou no corredor de alimentação do peixe.
Yellow Sally (Stonefly) em sua fase terrestre (adulta). Foto: Leandro Vitorino
A pirapitinga investe explosivamente na supercície quando um inseto cai em sua área de alimentação.
Pirapitinga fêmea capturada com a imitação da Yellow Sally.
As pirapitingas também são esguias e ariscas e assim que notam a presença do pescador, se escondem entre fendas de pedra. 
Pirapitinga capturada numa imitação de tanajura, mosca que provoca ataques logo na caída. 
A ninfa de gafanhoto também é uma mosca que provoca boas ações. 
A beleza e a espiritualidade do cerrado gera no praticante dessa modalidade de pesca uma satisfação extrema, lavando a alma, deixando-a leve e serena.




Até a próxima!!!


Att,

Projeto Pirapitinga e GO FLY

domingo, 22 de abril de 2012

DRAGON FLY (LIBÉLULA) GO FLY: Matéria e receita


Texto e fotos: Leandro Vitorino

Predadora voraz, tanto em sua fase aquática (ninfa) quanto em sua fase terrestre (adulta), a libélula (DRAGON FLY) pertence a ordem Odonata,onde existem mais de 4.800 espécies descritas das variadas cores e tamanhos.  
Apesar do parentesco com as libélulas, as donzelinhas (DAMSEL FLY) são uma das presas das libélulas. Essa predação ocorre tanto na água quanto no ar. As libélulas possuem um corpo mais robusto e pousam com as asas abertas, as donzelinhas são mais “magras” e geralmente pousam com asas fechadas.
Ninfa de Damsel fly e à sua frente uma pequena larva
Ninfa de Dragon Fly preparando-se para a eclosão

Donzelinha (Damsel Fly)

Damsel Fly Adulta (Donzelinha)

Dragon Fly (Libélula)

Esses insetos ocorrem em todos os biomas do mundo, e fazem parte do cardápio dos peixes insetívoros, portanto não podemos dispensa-lo em nossa caixa de mosca, não é mesmo?

Aqui no cerrado, as maiores ninfas aquáticas que encontramos são as Hellgramites (DOBSONFLY/FORMIGA LEÃO), em segundo lugar estão as ninfas das libélulas.
As eclosões das libélulas para a fase adulta podem ocorrer todo o ano, mas é nos meses quentes que a vimos com maior frequência. Para fugir dos predadores naturais geralmente eclodem durante a noite, mas podem eclodir durante o dia, o que as tornam presas fáceis.
Flagrei essa Libélula no momento da eclosão, no início da noite, em cima da minha roupa de mergulho que estava no barco
É comum encontrarmos cascas de libélulas que eclodiram na noite anterior 
 As adultas gostam muito de ficar pairando sobre a água, sobretudo em locais onde a água corre mais lentamente ou em poços. Tem hábitos diurno e eventualmente crepuscular. Os peixes geralmente as atacam quando vão depositar seus ovos nas água. Ela também é alimento para outros animais.
As libélulas que eclodem durante o dia possuem mais predadores à espreita

Quando as libélulas pousam nas pedras são alvos fáceis para essas aranhas, capazes de capturar até girinos e pequenos peixes
 RECEITA
Existem inúmeras receitas de Dragon fly, tanto de suas ninfas quanto de suas formas adultas (aladas).

 À esquerda uma libélula atada com pêlo e EVA, ao meio uma ninfa e à direita uma feita exlusivamente com pêlo e legs de borracha

Preferi atar a forma adulta pela grande apreciação que tenho pelos ataques na superfície e pela grande produtividade que possuímos com essas moscas durante o vadeio no cerrado.

Atamos e testamos várias receitas de DRAGON FLY adulta, algumas feitas exclusivamente de pêlos, umas de EVA e outras mistas (EVA e pêlo). As moscas de pêlo, como sempre, adicionam charme e tradicionalismo no atado, mas é com os EVAs e outros materiais sintéticos que as libélulas se tornam mais versáteis e realistas.
A receita que apresentaremos e que entendemos ser bem funcional é a libélula com corpo de EVA e asas de espuma sintética. Após atar pelo menos umas vinte unidades dessa mosca, concertando erros e inserindo detalhes aero e hidro dinâmico, chegamos nessa mosca aqui:

Vamos à receita...

INSTRUMENTAIS E MATERIAIS:


1- Morsa Monroy Green

2-Bobina

3-Finalizador de nó

4-Tesoura
5- ANZOL de haste curta, fina e com Gap largo. Para Pirapitinga usei o TIEMCO #8, modelo 100 (para Dry Fly)

6- FIO DE ATADO: utilizei o Danville’s  

7- EVA: placas finas compradas em papelaria, de várias cores diferentes

8- COLA: uso Super Bonder

9- ASAS (material alternativo): feitas de espuma sintética (essas que envolvem produtos digitais). Escolha uma mais firme.

10- Caneta para CD/DVD
11- Pernas de borracha médias ou grossas (vai depender do tamanho da mosca)
 

PASSO A PASSO:


CONFECÇÃO DO CORPO DE EVA:



Corte duas tiras de EVA, uma mais fina (para o abdome) e outra mais grossa (para a cabeça e tórax);
 



ABDOME



Ate o fio de atado no sentido olho-gap e leve-o até o nível da ponta do anzol:



Fixe a tira fina de EVA, o que representará o abdome da mosca:




ASAS


Primeiro, ate a tira grossa de EVA:




Recorte uma tira espuma (material alternativo) de 2 cm de largura e 10 cm de comprimento. Escolha uma espuma mais firme. Recorte-a ao meio, das extremidades ao centro, mas sem à separar completamente, como na foto:




Dobre a espuma ao meio e ate-a na transição entre o abdome e o tórax da mosca:




CABEÇA



Avance com o fio de atado chegando próximo ao olho e fixe a tira fina de EVA, a parte que ficou para frente representará a boca da libélula:




Em seguida fixe a tira grossa no mesmo local:




Dobre a tira grossa para trás e ate-a, dando o formato da cabeça da libélula:




TÓRAX



Retorne com o fio de atado para atrás das asas e ate a tira grossa de EVA, dando origem ao tórax da mosca:




Corte os excessos que ficaram atrás do tórax:




PERNAS



Retorne com o fio de atado até a transição entre a cabeça e o tórax

Fixe um par de LEGS grossas de borracha e finalize com a ferramenta de finalização



ACABAMENTO:



CORTES:

Corte o EVA da cabeça da mosca no meio, dando um formato dos olhos da libélula:



Corte as pontas das asas dando um formato arredondado:



PINTURA:

Pinte listras finas no abdome:



Pinte duas manchas na borda frontal de cada asa, simulando as manchas naturais de uma libélula:



Pinte o tórax da mosca:



Pinte os olhos da mosca:




ADICIONANDO AERO E HIDRODINÂMICA:


Posicione as asas em forma de leque e passe cola entre elas e fixe-as entre si apenas próximo a base:






Passe cola na parte superior da base das asas junto ao EVA, bilateralmente:



                  Em seguida, empurre as asas para cima num angulo de 45 graus com o corpo da mosca até a cola secar:


Após a secagem, o angulo deverá estar em +- 30 graus com o corpo da mosca. Essa colagem dará uma inclinação superior a asa que estabilizará a mosca em sua aerodinâmica, fazendo com que ela pouse corretamente. Também auxiliará na sua hidrodinâmica, mantendo a mosca em flutuação mesmo quando é puxada com vigor.



Cole a parte debaixo do corpo da mosca, fixando-a melhor o EVA no anzol:


Finalizamos assim mais uma mosca GO FLY de aparência realista, resistente e efetiva na captura de alguns peixes, como brycons, blacks, pacus, trutas, aruanãs, entre outros.


Variações de cores e pinturas apoximam o atado da realidade
Acredito que essa mosca tenha potencial para contribuir na pesca com mosca em vários biomas do mundo, trazendo alegria aos mosqueiros.
Apresentamos mais uma mosca GO FLY: a DRAGON FLY GO FLY