quinta-feira, 4 de agosto de 2011

RIO GRANDE, aprendizado e muita saudade...

Texto e fotos-sub: Leandro Vitorino

      Fonte de inspiração para muitos viajantes e escola para os novos e velhos pescadores do interior de São Paulo e Minas, o Rio Grande ainda se mostra como um rio de belos peixes para quem se dispõe em explorar cada palmo de suas águas. Castigado pela expansão agrícola, o seu caudaloso leito ainda respira amargurado entre as barragens hidroelétricas que aprisionam suas águas durante seu longo trajeto até o Rio Paraná.
     Hoje, raramente se encontram dourados, piracanjubas, pintados e jaús, que sempre foram os nobres peixes que dominaram sua Bacia por milhões de anos.
Predador e presa se encaram. Foto: Leandro Vitorino

     Os piapareiros, curimbeiros, corvineiros e tucuneiros representam a identidade atual dos pescadores do Rio Grande.
Jovem casal de azuis. Foto: Leandro Vitorino

     Para nós, mosqueiros, a pesca que se torna mais produtiva e interessante nesse rio é a de tucunarés azuis e amarelos, nativos da Bacia do Tocantins.

     O Rio Grande é tímido ao homem e só mostra suas qualidades quando bem explorado após inúmeras visitas.
Após alimentar-se, a traira se aquece em águas rasas e quentes para aumentar seu metabolismo e digerir o alimento. Foto: Leandro Vitorino

     Mergulhar e pescar em suas águas foi minha rotina semanal por seis anos, quando estudei medicina em Uberaba (UFTM). Frequentei inúmeros trechos entre suas barragens. As barragens de Jaguara, Delta, Volta Grande, Porto Colombia, Orindiuva e Água Vermelha foram as que mais visitei, tanto a jusante quanto a montante dessas barragens.
Macho-alfa de T. azul em seu cardume. Foto: Leandro Vitorino

     Posso dizer que o Rio Grande me marcou bastante, por isso o considero minha faculdade de pesca, pois lá pratiquei bastante a pesca e o mergulho em apnéia, foi a época em que me conscientizei sobre a importância da preservação da biodiversidade. Aproximadamente 90 % de minhas incursões ao Grande era sozinho, passava até 10 horas dentro da água sem nenhum contato humano, apenas avistava barcos de pescadores que passavam à distancia. Ví as maiores crueldades à natureza que se pode imaginar e minha fuga espiritual sempre estava lá, me aguardando de braços abertos para mais um mergulho em suas águas.
     Em certa época passei até a não gostar mais de gente, me isolava, parecia até mesmo um bicho do mato. Tinha dias que eu não queria voltar para a cidade, e na beira daquele imenso rio, ficava admirando sozinho o por do sol, mas, mais uma vez tinha que voltar para casa. Isso era uma verdadeira tortura pra mim, mas tinha que voltar. Gostava tanto daquelas águas que chegava a ter abstinência. Me sentia mais confortável sozinho à 15 metros de profundidade no Rio Grande do que em minha própria casa.

     Tinha dias que ele quase me levava, mas o rio era meu amigo...ele me queria vivo...não sei o porquê...talvez seja para que um dia eu pudesse defender seus seres desprovidos de voz, como faço hoje.
Captura no por do sol, a triste hora de ir embora...

     O paradoxo era que minha profissão me ensinava a cuidar da maior riqueza do homem, a sua saúde. Até que me conformei e voltei a viver com mais harmonia com as pessoas. Mas sem esquecer que todos aqueles que me cercavam, inclusive eu, eram responsáveis por aquele sofrimento que eu assistia e que incorporei por vários anos ...parecia que eu sentia a dor daquele lugar. Era impressionante a sintonia que eu tinha com aquele rio.

     Mergulhando em alguns dos principais pontos desse importante rio brasileiro por apenas uma década me atentei do quanto é crítica a situação de sobrevivência das criaturas do meio aquático. Assisti cardumes imensos desaparecerem de determinados trechos de rio, vejo grandes peixes sobreviverem à duras penas, sendo pescados e caçados até o esgotamento.

     Infelizmente, pouco se pode fazer para barrar esse caos. A cultura brasileira, a corrupção e as grandes áreas para serem monitoradas tornam a vida das criaturas aquáticas cada vez mais difíceis.

     O ano passado memorizou cem anos do nascimento do explorador que mais influenciou mergulhadores e ambientalistas de todo o mundo. O capitão Jacques Coustou e sua equipe fizeram o mundo parar diante de suas cenas submarinas que coletavam durante suas incríveis viagens pelos oceanos. Em décadas passadas, esse gênio já descrevia em seus relatos o quanto alguns daqueles ambientes aquáticos já haviam se degradado após sua última visita. Se por cima da água já podemos perceber todo esse desgaste, o contato real, através do mergulho, acaba tornando essa percepção ainda mais nítida.

     Para não falar só de assuntos tristes sobre o desrespeito com a natureza, posto aqui algumas fotos do Rio Grande.

Tucunaré azul (Cichla piquiti)

O valente Tucunaré amarelo (Cihla monoculus)


     Aos amigos do sudeste, o meu abraço!
Amigo Eduardo e seu tucunaré

    Ao meu amigo Rio Grande, minha eterna saudade...

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Texto e fotos: Leandro Vitorino 


1- Alencar, pioneiro da pesca com mosca em Goiás, estréia com as Pirapitingas;

2- Tanajura (por Leandro Vitorino);

3- Tenkara (por Jorge Pozzobon).


     Nessa ultima semana, Goiás sofreu ondas de calor e por sorte conseguimos planejar um vadeo de pirapitingas no último fim de semana. Eu, Alencar e Rafael Pacheco acordamos em Piri as 5:30 hs e após 1.600 metros de caminhada pelo cerrado, sentindo o aroma da manhã e contemplando a lua cheia, chegamos ao nosso primeiro ponto.

Pirapitingas
     O calor acabou aumentando o metabolismo das pirapitingas naquela semana, fazendo com que saíssem do fundo e das espumas e se movimentassem por todo o rio a procura de comida. Isso nos estimulou em pousarmos nossas moscas secas. Esperávamos que pudéssemos ter algumas tímidas ações, mas não, tivemos mesmo inúmeras ações explosivas.

Pirapitinga no equipo #2 de 6' e mosca seca

Alencar e sua pirapitinga
     O primeiro a lançar mosca foi o Alencar e logo na primeira caída mostrou a que veio: uma bela pirapitinga atacou o seu grilo e duelou com seu equipo #2 (ultra light de 6’). Gente... que luta... Prazer que foi saboreado por Alencar e dividido com nós que torcíamos por ele. Uma frase do Alencar já definia sua satisfação: “Já fiz o meu dia, mas bora continuar...”, mostrando estar bem disposto a vadear por terrenos difíceis que expõe o mosqueiro a certos riscos.

     Um pouco mais acima Rafa já “atirava” outro grilo... e mais outra pirapitinga.

     Depois dos dois ter capturado aquelas pirapitingas, me vi no direito de também pichar minha dry Tanajura. Larguei a câmera e montei minha Tenkara 10’1” by Jorge. Por estar em cima de um cânion e pela água estar muito clara, necessitava de uma apresentação mais distante, acabei usando uma running line #2 Floating de 5 metros com um líder cônico 3X. Mas tenho certeza que quando vier as primeiras chuvas (revoadas) e a água der uma esverdeada poderei usar tranquilamente uma linha mais curta, seja de tenkara tradicional ou brazuca. A emoção foi dupla: estreando a tanajura com a Tenkara nova, que por sinal demonstrou muita eficiência e prazer de captura.

Pirapitinga morde tanajura apresentada na Tenkara, num cânion. Foto: Rafael Pacheco

     A tanajura (inseto mais cobiçado entre todos pelas pirapitingas) me deu o prazer de estrear minha tenkara com uma esportiva pirapitinga. Mesmo não sendo uma pirapitinga grande, brigou bonito e hora nenhuma senti inseguro com o equipamento. Tá mais que aprovado essa tenkara! Muito obrigado Jorge pelo acabamento personalizado que deu na customização da vara, SHOW!!!
    Subimos mais 4.600 metros de pura emoção, só nas secas. O Rafa capturou cinco pirapitingas. Tive a sorte de fisgar as duas maiores do dia com as tanajuras e o azar de perdê-las também... Fiquei imaginando quantas ações elas poderiam gerar na época de revoadas: “que venham as revoadas”.
    Muitas ações, muitas emoções e amizade, num dos rios mais belos que já pesquei. Como sempre, a sensação de que a todo tempo a natureza nos espiava e a cada passo ela nos enchia com seus encantos.

Várias armadilhas de Formiga-leão.

     Obrigado Alencar e Rafa pela companhia. Parabéns Jorge pela iniciativa e coragem de customizar Tenkaras no Brasil!!!

segunda-feira, 4 de julho de 2011

O INVERNO CHEGOU EM GOIÁS, É HORA DAS NINFAS!
Texto e fotos: Leandro Vitorino

Hellgrammite- fotosub: Leandro Vitorino
Stonefly preta, atada por Rafael Pacheco

Rafa em ação
     A estação fria é marcada por poucos insetos terrestriais nas margens dos rios, ao mesmo tempo, a quantidade de ninfas nas pedras imersas são muitas. No cerrado, os terrestriais mais cobiçados pelas pirapitingas são aqueles com odores mais fortes, como as tanajuras, aleluias, grilos e gafanhotos, seguidos dos de odores mais suaves, como os tricópteros, etc...mas como as revoadas são sazonais (mais comuns no fim da primavera e inicio do verão)... e enquanto elas não chegam, viramos ninfeiros temporários de corpo e alma. Os EVAs e pêlos das nossas oficinas de atado cedem espaço para fios de chumbo... ainda bem que os odores não são os únicos atrativos para os peixes, principalmente quando se trata de um peixe com visão e sensibilidade vibracional aguçados, como a pirapitinga.  A aparência realista do inseto sendo lançada no local onde o peixe está condicionado a procurá-lo naquela época é uma das chaves da pesca com ninfas e outras moscas molhadas.  

Foto: Kensuke Matsumoto

Ninfas de odonata (donzelinha) -acima- e larvas tricópteros (caddisfly) - abaixo - são extremamente comuns no cerrado, fotos: Leandro Vitorino

A boa observação do ambiente, fez Rafael Pacheco obter boas capturas.

     Pela quase ausência de eclosões no inverno, os peixes insetívoros voltam sua alimentação basicamente as larvas e ninfas aquáticas. As larvas de Dobsonfly (Hellgrammite), de tricópteros, stones e mayflies são bem comuns nesta época.

Cardume de pirapitingas em águas rasas. Foto-sub: Leandro Vitorino

Foto: Olimpio Vitorino.

     Acabei criando um vínculo maior com o Pouca-família, mas os mosqueiros do GO FLY já testaram e aprovaram várias outras moscas lastreadas. As ninfas pretas, no inverno, assumem local de destaque.
     Nos pequenos rios, os canais estão mais secos e a água fica cada vez mais clara. Essa situação deixa as pirapitingas mais ariscas do que já são, associado a chegada das frentes frias e ao baixo metabolismo durante o inverno, sua captura se torna mais difícil, mas não menos emocionante. Nesta época, a pesca com mosca seca é possível, só não é tão produtiva, portanto também não devem faltar em nossa fly box, pois nada como um ataque na superfície, não é mesmo!?


Marimbondo Pouca-família pequeno (amarelo) num canion do rio. Foto: Leandro Vitorino.

Foto: Wiliam

Grande fêmea ovada em pleno inverno, prova de que também desovam na estação fria. Foto: Olimpio Vitorino

     Quando a pirapitinga sente a chegada do pescador ela se esconde. Nos locais de corredeiras rasas ela se posiciona na espuma da corredeira (cabeça), o que dificultaria a sua visualização. E é nesse local que as ninfas devem ser lançadas para obtermos mais ações, devendo tomar o cuidado de reduzirmos ao máximo o arrasto da linha para fazermos uma fisgada firme ao mínimo sinal da mordida do peixe. Como não estamos vendo a mosca e como ela não possui a consistência nem mesmo o sabor de um inseto verdadeiro, o peixe dificilmente ficará com a mosca na boca por um tempo maior do que dois segundos.  São poucos segundos que exigem uma grande concentração, é a hora que parece existir apenas peixe e mosqueiro, isolados de todo o resto do mundo.

     Apesar das ações reduzidas no inverno, o verdadeiro mosqueiro é aquele que não se deixa abater pelas dificuldades, transpondo obstáculos e superando seus próprios limites. Talvez seja essa uma das poucas verdades absolutas da pesca com mosca.

     Após a captura do nosso cobiçado troféu, todas as dificuldades são esquecidas, lavando a alma do mosqueiro.

Kensuke e uma bela pirapitinga fisgada com uma Bambú #4 e streamer Sushi (by Gregório)