sexta-feira, 12 de agosto de 2011

TANAJURA: RECEITA DE ATADO INÉDITA!

Texto e fotos: Leandro Vitorino
Tanajura durante revoada no cerrado

     Para um mosqueiro que aprecia a arte do atado e que observa seu ambiente de pesca nos mínimos detalhes, acabamos querendo ir mais além daquilo que e a literatura nos oferece. Aliás, a realidade de pesca dos atadores (flytier's) europeus ou norte americanos é diferente da brasileira, principalmente quando nos remetemos ao cerrado, bioma único e exclusivamente sul americano com grande taxa de endemismo.
As espécies Cabeça de vidro e Limão são as mais encontradas no cerrado.

     A tanajura é a forma alada da fêmea de saúva e o bitu é o macho. A saúva ocorre em todos os estados brasileiros, portanto não podemos deixar de direcionar nossos olhares a esse inseto importante que faz revoadas durante as primeiras chuvas do ano e que representa um apetitoso cardápio para os peixes insetívoros do Brasil. Os Brycons em geral, pacus, branquinhas, saicangas, lambaris, aruanãs e até os predadores em fase juvenil, como dourados, tabaranas e tucurarés também apreciam essa iguaria.
     Observando uma revoada na beira de um rio fiquei completamente inerte ao assistir os inúmeros ataques dos peixes às tanajuras e bitús que caiam na água, por isso resolvi desenvolver a receita dessa mosca seca (dry) que já gerou inúmeras ações e capturas à equipe GO FLY, ajudando também a construir nossa identidade mosqueira. Veja como é fácil:
Material utilizado:
1- Anzol: TIEMCO #8, modelo TCM 100 - para Pirapitinga-do-sul
2- EVA: cor vinho e cor terra
3- LEGS: Roxa (medium) e marrom (fine)
4- Penas de neck ou dorso (galo índio vermelho é uma opção)
5- Fio de atado: 6/0
6- Tesoura
7- Cola de secagem rápida (Super Bonder)
PASSO A PASSO:
A) CORPO (BODY):
1- Cole 4 placas de EVA com cola de secagem rápida (Super Bonder);
A cor marrom pode ser usada para o bitú (macho) e o vinho para a tanajura (fêmea).

2- Recorte o corpo no formato da tanajura, de forma que reproduza o abdome, o tórax e a cabeça do inseto. A cabeça deverá ser mais alta, como indicado na foto, se construí-la mais baixa a mosca poderá ter a ação de um DIVER, o que não é nosso objetivo aqui;

3- O corpo da tanajura deve ter o comprimento exatamente igual ao da haste do anzol. Portanto, não exagere no abdome da tanajura, pois caso o abdome da mosca fique grande, o peixe de boca pequena não conseguirá abocanhar o abdome da mosca e o anzol ao mesmo tempo, fazendo com que o mosqueiro perca a ação do peixe;

4- Faça uma fenda na parte inferior da mosca de forma que sua profundidade atrevesse apenas uma das placas;


5- Envolva a haste do anzol com fio de atado, passe cola, encaixe imediatamente a fenda da mosca na haste do anzol e espere secar;
B- PERNAS (LEGS):

1- Passe o fio de atado entre o abdome e o tórax da mosca e fixe as pernas médias (medium legs) roxas na mosca, fixando-as uma de cada vez;
2- Siga com o fio de atado até a fenda entre o tórax e a cabeça da mosca e fixe as pernas finas (fine legs). As pernas frontais deverão ser finas, pois além de reproduzirem melhor as “antenas” da tanajura, não provoca peso excessivo na parte frontal da mosca, o que poderá comprometer sua flutuabilidade;

3- Faça um pequeno “pique” no abdome da mosca e direcione a perna traseira para trás, em seguida faça o mesmo na cabeça e direcione a perna dianteira para frente (transformando essa na “antena” da tanajura). Cole os “piques” do EVA sem que a cola encoste nas legs, pois poderá torcê-las.
4- Neste momento você poderá finalizar o fio de atado próximo ao olho do anzol, pois não mais será usado.
B) ASAS (WINGS):
1- Escolha um par de penas firmes e com poucas cerdas;
2- Transfixe o tórax da mosca com a agulha, entrando mais medialmente na região póstero-superior do tórax e partindo para a região antero-inferior mais lateralmente de onde você entrou com a agulha;

3- Em seguida passe a alma da pena dentro do olho da agulha e acabe de atravessar a agulha, assim você terá transfixado a alma da pena pelo EVA;
4- Faça o mesmo com a asa do outro lado;
5- Nesse momento, caso a pena fique torta, você poderá ajustá-la. Após o ajuste, corte o excesso da alma da pena;
6- Cole a pena no EVA;
7- Passe uma camada de cola em toda parte inferior da mosca para reforçar a sua fixação ao anzol.
     Tá aí mais uma mosca seca super eficiente que com certeza o mosqueiro brasileiro não pode deixar de experimentar...
Tanajura pronta para voar. Foto: Leandro Vitorino

     É uma mosca ideal para quem curte um vadeo rio acima com moscas secas. É leve, fácil ser pinchada e também pode ser usada com técnica Tenkara.

Pirapitinga e dry tanajura em ação. Fotos: Kelven Lopes


Kelven Lopes e sua Pirapitinga na Tanajura. Foto: Leandro Vitorino

     Quando estiver pescando com a dry tanajura você perceberá que os ataques ocorrerão quase que exclusivamente na “bunda” (abdome), que é a parte mais apetitosa para os peixes, fato que os ribeirinhos também relatam quando pescam com tanajuras naturais.

CONSIDERAÇÕES:

     Essa receita de atado da tanajura foi postada após inúmeros testes práticos com Pirapitingas-do-sul. Várias adaptações/modificações foram realizadas para chegar a conclusão de que essa era a receita próxima do ideal, mas sabemos que toda receita pode ser adaptada ou melhorada, dependendo da individualidade de cada um, principalmente se o objetivo for outra espécie de peixe.
     Lembre-se: Nunca deixe a busca pelo realismo de uma mosca comprometer sua funcionalidade (Ex: flutuabilidade e equilíbrio)

    Uma das possibilidades de variações:


   Boas fisgadas!!!
Nosso email:  goiasfly@hotmail.com

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

RIO GRANDE, aprendizado e muita saudade...

Texto e fotos-sub: Leandro Vitorino

      Fonte de inspiração para muitos viajantes e escola para os novos e velhos pescadores do interior de São Paulo e Minas, o Rio Grande ainda se mostra como um rio de belos peixes para quem se dispõe em explorar cada palmo de suas águas. Castigado pela expansão agrícola, o seu caudaloso leito ainda respira amargurado entre as barragens hidroelétricas que aprisionam suas águas durante seu longo trajeto até o Rio Paraná.
     Hoje, raramente se encontram dourados, piracanjubas, pintados e jaús, que sempre foram os nobres peixes que dominaram sua Bacia por milhões de anos.
Predador e presa se encaram. Foto: Leandro Vitorino

     Os piapareiros, curimbeiros, corvineiros e tucuneiros representam a identidade atual dos pescadores do Rio Grande.
Jovem casal de azuis. Foto: Leandro Vitorino

     Para nós, mosqueiros, a pesca que se torna mais produtiva e interessante nesse rio é a de tucunarés azuis e amarelos, nativos da Bacia do Tocantins.

     O Rio Grande é tímido ao homem e só mostra suas qualidades quando bem explorado após inúmeras visitas.
Após alimentar-se, a traira se aquece em águas rasas e quentes para aumentar seu metabolismo e digerir o alimento. Foto: Leandro Vitorino

     Mergulhar e pescar em suas águas foi minha rotina semanal por seis anos, quando estudei medicina em Uberaba (UFTM). Frequentei inúmeros trechos entre suas barragens. As barragens de Jaguara, Delta, Volta Grande, Porto Colombia, Orindiuva e Água Vermelha foram as que mais visitei, tanto a jusante quanto a montante dessas barragens.
Macho-alfa de T. azul em seu cardume. Foto: Leandro Vitorino

     Posso dizer que o Rio Grande me marcou bastante, por isso o considero minha faculdade de pesca, pois lá pratiquei bastante a pesca e o mergulho em apnéia, foi a época em que me conscientizei sobre a importância da preservação da biodiversidade. Aproximadamente 90 % de minhas incursões ao Grande era sozinho, passava até 10 horas dentro da água sem nenhum contato humano, apenas avistava barcos de pescadores que passavam à distancia. Ví as maiores crueldades à natureza que se pode imaginar e minha fuga espiritual sempre estava lá, me aguardando de braços abertos para mais um mergulho em suas águas.
     Em certa época passei até a não gostar mais de gente, me isolava, parecia até mesmo um bicho do mato. Tinha dias que eu não queria voltar para a cidade, e na beira daquele imenso rio, ficava admirando sozinho o por do sol, mas, mais uma vez tinha que voltar para casa. Isso era uma verdadeira tortura pra mim, mas tinha que voltar. Gostava tanto daquelas águas que chegava a ter abstinência. Me sentia mais confortável sozinho à 15 metros de profundidade no Rio Grande do que em minha própria casa.

     Tinha dias que ele quase me levava, mas o rio era meu amigo...ele me queria vivo...não sei o porquê...talvez seja para que um dia eu pudesse defender seus seres desprovidos de voz, como faço hoje.
Captura no por do sol, a triste hora de ir embora...

     O paradoxo era que minha profissão me ensinava a cuidar da maior riqueza do homem, a sua saúde. Até que me conformei e voltei a viver com mais harmonia com as pessoas. Mas sem esquecer que todos aqueles que me cercavam, inclusive eu, eram responsáveis por aquele sofrimento que eu assistia e que incorporei por vários anos ...parecia que eu sentia a dor daquele lugar. Era impressionante a sintonia que eu tinha com aquele rio.

     Mergulhando em alguns dos principais pontos desse importante rio brasileiro por apenas uma década me atentei do quanto é crítica a situação de sobrevivência das criaturas do meio aquático. Assisti cardumes imensos desaparecerem de determinados trechos de rio, vejo grandes peixes sobreviverem à duras penas, sendo pescados e caçados até o esgotamento.

     Infelizmente, pouco se pode fazer para barrar esse caos. A cultura brasileira, a corrupção e as grandes áreas para serem monitoradas tornam a vida das criaturas aquáticas cada vez mais difíceis.

     O ano passado memorizou cem anos do nascimento do explorador que mais influenciou mergulhadores e ambientalistas de todo o mundo. O capitão Jacques Coustou e sua equipe fizeram o mundo parar diante de suas cenas submarinas que coletavam durante suas incríveis viagens pelos oceanos. Em décadas passadas, esse gênio já descrevia em seus relatos o quanto alguns daqueles ambientes aquáticos já haviam se degradado após sua última visita. Se por cima da água já podemos perceber todo esse desgaste, o contato real, através do mergulho, acaba tornando essa percepção ainda mais nítida.

     Para não falar só de assuntos tristes sobre o desrespeito com a natureza, posto aqui algumas fotos do Rio Grande.

Tucunaré azul (Cichla piquiti)

O valente Tucunaré amarelo (Cihla monoculus)


     Aos amigos do sudeste, o meu abraço!
Amigo Eduardo e seu tucunaré

    Ao meu amigo Rio Grande, minha eterna saudade...

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Texto e fotos: Leandro Vitorino 


1- Alencar, pioneiro da pesca com mosca em Goiás, estréia com as Pirapitingas;

2- Tanajura (por Leandro Vitorino);

3- Tenkara (por Jorge Pozzobon).


     Nessa ultima semana, Goiás sofreu ondas de calor e por sorte conseguimos planejar um vadeo de pirapitingas no último fim de semana. Eu, Alencar e Rafael Pacheco acordamos em Piri as 5:30 hs e após 1.600 metros de caminhada pelo cerrado, sentindo o aroma da manhã e contemplando a lua cheia, chegamos ao nosso primeiro ponto.

Pirapitingas
     O calor acabou aumentando o metabolismo das pirapitingas naquela semana, fazendo com que saíssem do fundo e das espumas e se movimentassem por todo o rio a procura de comida. Isso nos estimulou em pousarmos nossas moscas secas. Esperávamos que pudéssemos ter algumas tímidas ações, mas não, tivemos mesmo inúmeras ações explosivas.

Pirapitinga no equipo #2 de 6' e mosca seca

Alencar e sua pirapitinga
     O primeiro a lançar mosca foi o Alencar e logo na primeira caída mostrou a que veio: uma bela pirapitinga atacou o seu grilo e duelou com seu equipo #2 (ultra light de 6’). Gente... que luta... Prazer que foi saboreado por Alencar e dividido com nós que torcíamos por ele. Uma frase do Alencar já definia sua satisfação: “Já fiz o meu dia, mas bora continuar...”, mostrando estar bem disposto a vadear por terrenos difíceis que expõe o mosqueiro a certos riscos.

     Um pouco mais acima Rafa já “atirava” outro grilo... e mais outra pirapitinga.

     Depois dos dois ter capturado aquelas pirapitingas, me vi no direito de também pichar minha dry Tanajura. Larguei a câmera e montei minha Tenkara 10’1” by Jorge. Por estar em cima de um cânion e pela água estar muito clara, necessitava de uma apresentação mais distante, acabei usando uma running line #2 Floating de 5 metros com um líder cônico 3X. Mas tenho certeza que quando vier as primeiras chuvas (revoadas) e a água der uma esverdeada poderei usar tranquilamente uma linha mais curta, seja de tenkara tradicional ou brazuca. A emoção foi dupla: estreando a tanajura com a Tenkara nova, que por sinal demonstrou muita eficiência e prazer de captura.

Pirapitinga morde tanajura apresentada na Tenkara, num cânion. Foto: Rafael Pacheco

     A tanajura (inseto mais cobiçado entre todos pelas pirapitingas) me deu o prazer de estrear minha tenkara com uma esportiva pirapitinga. Mesmo não sendo uma pirapitinga grande, brigou bonito e hora nenhuma senti inseguro com o equipamento. Tá mais que aprovado essa tenkara! Muito obrigado Jorge pelo acabamento personalizado que deu na customização da vara, SHOW!!!
    Subimos mais 4.600 metros de pura emoção, só nas secas. O Rafa capturou cinco pirapitingas. Tive a sorte de fisgar as duas maiores do dia com as tanajuras e o azar de perdê-las também... Fiquei imaginando quantas ações elas poderiam gerar na época de revoadas: “que venham as revoadas”.
    Muitas ações, muitas emoções e amizade, num dos rios mais belos que já pesquei. Como sempre, a sensação de que a todo tempo a natureza nos espiava e a cada passo ela nos enchia com seus encantos.

Várias armadilhas de Formiga-leão.

     Obrigado Alencar e Rafa pela companhia. Parabéns Jorge pela iniciativa e coragem de customizar Tenkaras no Brasil!!!